03/09/2007

Sonhos Invertidos


Era uma dessas noites quentes. Mas não era o clima. Era ela. Ardia em seus desejos. Os lençóis, molhados pela água vertida de seus poros dilatados, suplicavam pelo amanhecer. Naquela noite dantesca, seus pesadelos mais gostosos vieram lhe visitar. Sim! O Pecado, espectro ardiloso, não saía de seu imaginário. Roubava toda a sensatez que ela guardara para enfrentar essas tormentas que, vez por outra, assolam as pobres almas. Em sua cama, suspiros ilusórios de um querer. Era só aspiração, vontade, ânsia. Naquele pesadelo gostoso nada tinha sido real. Nem mesmo a angústia de não poder enlaçar o corpo vislumbrado. Os lençóis, coitados, iam sendo rasgados nas tortuosas curvas que seu corpo modulava enquanto viajava naquele momento onírico. Fiapos ao amanhecer era o que seriam. Os desejos também seriam fiapos que nem em pesadelos gostosos - olha a contradição!- puderam ser saciados. Amanhece. Sensação esquisita ela sente. Como se tivessem dopado sua alma e saciado seu corpo. Mas como? Ela se questiona. Saí do bar sozinha. Deixei as meninas e peguei um táxi direto pra casa. Reflete. Recorda-se das taças e taças de vinho que tomara na noite anterior. Nossa! Que pileque! De repente lembra do antigo namorado que havia reencontrado no bar. De uns tempos pra cá, ando tendo amnésia – diz a si mesma – preciso parar de beber. Ah! – suspira e pensa - Aquele homem foi tudo o que não pôde ser. O que não vivi. O que não senti. O que não posso contar. Só queria mesmo uma noite para me libertar desse fantasma que, durante todos esses anos, não me deixou um só instante. Então ela vira para o outro lado da cama e encontra um bilhete. “Não pude ficar até o amanhecer, espectros não sobrevivem à luz do dia. Por isso, não se iluda. A mim só poderás encontrar em teus pesadelos mais gostosos. Nas noites infernais é que me encontras. Sou da escuridão e nesse ambiente onde vives, todo pintado branco, cegaria.”Nesse momento entra o enfermeiro e diz: Moça está na hora de seu remédio. Por um segundo, um flash, a lucidez chega até ela. Dá-se conta de que não é fácil ter sonhos em um hospício. Melhor mesmo é se conformar com pesadelos e transformá-los em algo gostoso. O enfermeiro injeta uma dose cavalar de calmante em suas veias. Mais uma vez ela começa a criar um mundo, fatos e pessoas alienígenas. Efeito dos tranqüilizantes e das alucinações que começara a ter depois de muitos anos de internação e de alcolismo.

5 comentários:

benechaves disse...

Oi, linda: não sabia deste outro blogue. Que bom! É mais um momento literário que nos envolve, nos delicia. E sua prosa é tb forte como sua poesia. Boa sorte e sucesso!

Um beijo com vigor...

Bina Goldrajch disse...

Nossa! rsss...
Me deixou meio sem fôlego! Tadinha!!!
porém às vezes indago-me se seria mesmo tão ruim vive num mundo parelelo, se eu acreditasse de verdade que ele é real.

Sei lá...

Beijo!

Moacy Cirne disse...

O clima de delírio/alucinação dá lugar ao que existe por trás da loucura: o envolvimento não é um envolvimento, apesar do inferno dantesco, é algo que extrapola os sentidos e, aqui, existe como literatura. Não há como se deliciar: há como sentir o "Pecado", a ânsia de um momento que poderia ser onírico, sim, mas que só se realiza na dura concretude das "tortuosas curvas" sígnicas, que são literárias, antes de mais nada. Um beijo, Fernanda.

Lord Raphael disse...

Meu Deus, calma, deixa eu voltar dessa viagem que acabei de presenciar!
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Pronto, agora acho que estou em condições de comentar!
Poxa Fernanda, que conto hein?
Realmente fiquei adimirado, pude vislumbrar cada deleite de sua personagem, ver cada expressão, sentir cada pensamento oriúndo e nebuloso que ela tinha...
Meus parabéns!

como escritor, eu me deleito com palavras tão bem focadas, quais você posta aqui no seu blog.
Não resisti e estou indicando ele para meus poucos leitores.

Se possível, gostaria de trocar experiências, contos, idéias e bobagens com você. hoje em dia é tão complicado achar pessoas inteligentes, que quando eu acho, tento "agarra-las" ^^

Até mais senhorita, e valeu pela visita !

Poliedro disse...

Simpática Amiga:
Retracta um mundo à parte consumado numa realidade visível, mas sonhada pensativamente com vivacidade. Os hospícios existem com pessoas que, infelizmente ou não, perderam o bom-senso e a capacidade de se adaptar ao Mundo.
Sempre tive muita estima e compreensão por elas.
Têm um interior rico e brilhante, por vezes, mas silenciado por precaução e algum temor.
Os tranquilizantes exercem poder sedativo que as ajuda na vida, mas coarta os delírios sentidos e válidos por essas pessoas. Não são lúcidos. Fluem alucinados sem controle.
Belo cenário descrito com um poder comunicativo excelente.
Sempre a admirar o que escreve deliciosamente e com preocupação evidente.
Abraço Amigo com estima
pena