09/09/2007

Se ela soubesse...


Continua achando tudo sem graça e não vê nada além de mais uma noite solitária.

Trabalha exaustivamente até o fim do dia e vai para casa. Quando chega, toma a atitude de driblar seu destino e busca fazer algo diferente.

Arruma-se rápido como nunca.

Está com vontade de curtir a vida noturna. Sempre achou a noite mágica. Acreditava que nela tudo acontecia, até o impensável, o improvável, o imprevisto.

No momento em que tenta atravessar a rua em frente ao seu condomínio, passa um carro em alta velocidade. Quase lhe atropela. Por um triz não chegou sua hora. Dirige-se à faixa. Vai ser politicamente correta. À noite nos faz imprudente – pondera, mas naquele momento não quer se subjugar ao domínio notívago. Prefere ficar viva.

Movimenta-se para o bar mais movimentado de seu bairro ao encontro das amigas que batem ponto ali quase toda santa noite.

Entra.

O ambiente turvado pelos cigarros embaça sua visão por um instante. Observa todos os lados e localiza as colegas sentadas numa mesa de canto. Senta e começam um papo daqueles bem típicos de mulheres em mesa de bar: roupas, a fulana que fez lipo, o cara mais bonito sentado do outro lado, o caos na política brasileira e por aí vai. Mulheres conversam sobre tudo em uma mesa de bar.

Angélica precisa ir ao banheiro. Ao chegar, se olha no espelho e percebe quem nem colocou brincos. Decide pedir imediatamente um par emprestado para as companheiras.

Na saída, esbarra em uma mulher de ar misterioso. Parece uma bruxa com essa roupa lilás e olhos tão marcantes. Nossa! Senti até arrepios – pensa. E corre ao encontro de seu desespero - um par de brincos. Consegue com uma que sempre tem um extra na bolsa, para casos como esse.

Volta para colocá-los.

A dona com ar enigmático está pintando os grandes olhos de um preto profundo, tal qual uma noite sem estrelas. Posiciona-se ao lado da que parece uma feiticeira e essa começa a puxar assunto:

- Gosta de lápis preto nos olhos?

-Sim, gosto.

- Você quer emprestado? Precisa se pintar, seu rosto está muito desbotado.

Angélica se deu conta que a ansiedade em não passar mais uma noite como tantas outras, fez com que não se maquiasse.

-Aceito sim. Obrigada.

Depois desse breve diálogo, novamente aquele frêmito. Vou fazer xixi. Já tenho brincos e olhos pintados. Não preciso de mais nada - reflete.

Quando sai do boxe, uma de suas parceiras está lá. Observa que só as duas ocupam aquele espaço e pergunta:

- Andréa, você viu a moça de roxo que estava aqui?

- Não tinha ninguém quando entrei. Aliás, fiquei, forçadamente, observando essa entrada o tempo todo porque minha cadeira fica de frente para cá. Desde quando você veio à primeira vez e voltou para pegar os brincos, ninguém entrou ou saiu daqui. Além você, lógico.

- Mas não é possível! Foi ela quem me emprestou o lápis com que pintei os olhos.

Fica grilada com aquele assunto, mas resolve voltar pra mesa e curtir o bar com as amigas. Sorrir, conversa, toma cerveja além da conta. É tarde. Necessita ir para casa pois trabalha logo mais.

Despede-se e combinam outro encontro para a noite seguinte.

Volta pelo mesmo caminho. Mas depois de extrapolar com a ingestão de álcool, já não tem a mesma prudência. Ao invés de ir pela calçada, anda pelo meio-fio. Observa – em sua pouca lucidez – que quase não tem trânsito.

De repente surge um carro em alta velocidade. Ainda tenta escapar, mas não dá tempo.

A pancada foi tão forte que ela morre na mesma hora.

Não tinha como saber, mas a senhora de roxo e olhos breu era a Morte lhe rondando, louca por mais uma companhia. Não driblou, foi ao encontro de seu destino. Tinha mesmo que sair de casa.

Angélica só acertou uma coisa: à noite nos torna inconseqüentes e traz consigo o improvável, o imprevisto.

Quem poderia imaginar que ela fosse morrer naquele retorno para casa?Trajeto tantas vezes feito. Se ela tivesse ficado no aconchego de sua cama, ao menos sentiria tédio. Mortos é que não sentem nada.

O impensável aconteceu.

6 comentários:

Poliedro disse...

Minha Amiga:
Segui com muito interesse a sua história, sempre prognosticando um final feliz para a narrativa exaustiva e sempre de "suspense". A noite realmente acarreta grandes esforços de atenção e cuidado. Nunca sabemos o que vai acontecer.
Admirei a imensa coragem da moça de mudar hábitos doentios, de fastio e de solidão.
É preciso fazer algo pelos que vivem sós entregues só a si próprios, donos do seu destino inconsequente.
Quantas moças aqui ou aí sofrerão do mesmo mal? E, no Mundo?
A noite apresenta-se, por vezes, como uma solução impensada e nada boa, pelas consequências que podem daí vir, muito gravosas para elas.
É esta a lição magistral que tiro hoje do seu conto.
Por toda a imensa solidão de pessoas no nosso planeta e, pela sua bravura de luta e entrega à vida, por vezes, cruel, incompreensível e desencantada.
Adorei o conto.
Saudações amigas
pena

Poliedro disse...

Minha amiga:
Obrigado pelas palavras feitas de encanto deixadas no meu blog.
Adorei!
Pela maravilhosa intervenção tão doce, terna e maravilhosa, um bem-haja sincero.
OBRIGADO!
Beijos amigos
pena

Poliedro disse...

Simpática Amiga:
Desculpe, volto novamente por me parecer pertinente.
As pessoas já pensaram nas mulheres que, por se encontrarem na mais absoluta solidão, se entregam à prostituição, aos perigos da noite, da droga e dos meandros do crime, só para apagarem esta sofrida sensação?
Só para a apagarem de si, embora difícil, desnecessária e cruel?
As mulheres sofridas de solidão pagam arduamente o preço de uma existência imerecida e descabida de lógica e direitos humanos que pagam injustamente com o pão que o diabo amassou.
Injusta forma e desumana forma de vida!
Dá que pensar.
Abraço sincero
pena

Jens disse...

Oi Fernanda.
Gostei. Você é boa em verso e prosa.
Um a e um b.

Edson Marques disse...

Fernanda,


teus textos, todos, encantam!


Meu aplauso!


Abraços, flores, estrelas..

.

storytellers disse...

Oi Fernanda, vim aqui avisar da mudança de endereço do meu blog. Por questões pessoais decidi acabar com o kerubina, que já era tudo menos um blog anónimo como eu desejava desde o início, de qq modo, terei muito gosto que m vás lá visitar no novo endereço: onceuponatime7.blogspot.com

bjs