18/09/2007

Ambivalência


No esquecimento, a saída. Agora, diante do mar, o vai e vem das ondas ressuscita o amargo da saudade. Logo ela, que envernizara o coração e a memória. Tudo para não cair no buraco negro da ausência. Negava-se a ser conduzida por algo sem domínio. Suplicou que ficasse, antevendo a dor. Nada impediu o ímpeto desbravador de sua metade que, desde então, é nômade. Rastreia o não vivido, consumindo a vastidão com voracidade alucinante. Hedonista, busca gozos ininterruptos. Viaja com algemas e correntes para aprisionar seus deleites. Enquanto isso, em frente ao mar, o balançar das ondas dissolve o fel que esbarra na impermeabilidade daquela que ficou sozinha. Não houve consenso entre a racionalidade comedida e a emoção dissoluta. Jamais conseguiram conviver. Helena era incapaz de compreender sua personalidade. Não decifrou os anagramas metódicos, nem vislumbrou a forma das mal traçadas linhas que perfaziam seu ser. Da incongruência de suas facetas, restara a sina dos andróginos, separados pela ira de Zeus: incompletos, sôfregos na busca incessante da metade perdida, porém almejada. Só assim enxergou sua policromia, seus mosaicos, fragmentos, fractais. Sentiu que se vive mesmo é nesse caos ordenado. Quando a emoção retornou – exausta da andança, não reconhece a razão. Essa, envernizou a memória, o coração e sua face ficou distorcida pela covardia de quem se precipita no abismo da indiferença por medo de viver. Era tarde demais. E vai a busca da metade perdida no conflito subjetivista de Helena. A emoção aprendeu que viver é ousar. Quem sabe não encontra seu complemento em outra tez? Salta na vida sem pára-quedas.



Imagem: Monika Eichert

15 comentários:

AcidoCloridrix disse...

Seu Blog está fantástico,,,,, vou voltar,,,, E que tal a tua opinião sobre ….. Sexo com pessoas bem mais velhas????? Já experimentou???? Foi bom???? Foi mau???? Foi …….. ????? Diz-nos tudo em: http://sexohumorprazer.blogspot.com/2007/09/sexo-com-pessoas-mais-velhas.html
…. Obrigado, HCL

ro druhens disse...

Nossa, que bonito!!! Coisa de filófoso mesmo,mto lindo, bjo

Poliedro disse...

Esta bela prosa poética esbarra na sensação de um medo de viver descrito. Esbarra na solidão de momentos existênciais de desencanto no sentimento e no domínio das emoções da vida.
O terno mar tem por cenário uma dor intensa e profunda que expressa tão bem. Tem contornos de tristeza e de desencanto pelo existir.
Com intensidade e, baseado na sua escrita bem elaborada e magnífica, na selecção que decora e executa os seus textos, apelo-lhe:
Nunca se sinta assim. O seu talento é imenso e indescrítivel.
Escreve frases lindas, com alegria.
Beijos ternos de amizade
pena

Paulo Sempre disse...

Sem Pára-quedas!?

Beijo.
Foi um prazer passar por aqui.

o amnésico disse...

Digo!
Uma gentileza insone com outra se paga: obrigado por sua visita e pelas palavras no meu caderninho digital de pensamentos perdidos.
E obrigado também por chamar minha atenção para ambos seus espaços de poesia e prosa, pelo visto não sou o único a recolher inspiração no reino de Selene...
Esplêndida sua 'Ambivalência', texto denso e envolvente! Pode aguardar minhas visitas constantes.

E faço minhas as suas palavras:
Saudações ao Talento.

Paulo Sempre disse...

Obrigado pela visita. Visto que o tempo urge, fica a promessa de voltar em breve para lhe responder às questões.
Beijo
Paulo

ACANTHA disse...

Mini-contos encantados,poesia em prosa, imagens adoráveis!!

Poliedro disse...

Passei para deixar votos de amizade sincera e tudo de bom.
Corre tudo bem?
Beijos amigos de afecto
pena

Carlos qualquer coisa disse...

Acredito que a pior ausência é aquela que é presença. O poeta que me perdoe. Mas ausência que é presença, não é presença do ser amado, é presença apenas do desejo pelo ser amado. E se há desejo e não há o objeto de desejo, cria-se sentimento de saudade, tristeza, solidão ou angústia. Claro, há quem goste, e nisso as palavras do poeta são acertadas. Mas são palavras raras, difíceis de serem escritas numa folha tão rabiscada, numa alma tão torturada por pensamentos tão negros quanto o grafite que escreve a folha. E esses rabiscos causam feridas, e feridas o tempo não cura, feridas o tempo esconde, que nas horas escuras de solidão sangram e derramam-se, muitas vezes, no papel, escritas pela mão que anseia entrelaçar-se numa outra que não mais está ao seu lado.


Acabei dando a volta do cavalo doido, escrevendo esse monte de coisa. Desculpe-me, caso não goste desses exagerados devaneios. (Se bem que o erro é meu, e a desculpa é sua, então não posso pedir que você faça algo com uma coisa que é sua.)

Essas palavras da sua prosa anterior me atiçaram a memória:

"Mas ela, indiferente, peregrina pelo quarto, morada de sua quimera."

Lembram-me do primeiro conto do meu blog. Na verdade, me lembram dos três primeiros parágrafos.

"Eu estava andando de um lado para outro, tentando dissipar essa sensação de tristeza que me anuviou a alma."

Adorei o blog. Gostei mais do seu de prosas do que o de poesias. Mas os dois são muito bons, é claro.

Abraço!

benechaves disse...

Oi, querida: Realmente viver é ousar! E não é fácil saltar nesta vida sem pára-quedas. Bela composição na sua condição de uma prosa-poética. Suas palavras fluem como água corrente em uma passagem abismal.
Olha: vc recebeu alguma vez uns poemas que enviei por email? Volto a insistir porque não obtive resposta em abordagem anterior.

Um beijo singular...

Mustafa Şenalp disse...

Your blog is very nice:)

pessoa nenhuma disse...

prosa poética suscita-me muita curiosidade. identifico-me muito. gostei imenso. tens um dom. os leitores ficam presos às palavras e retem-se por momentos a refletir...

Palavras de um mundo incerto disse...

Poderia ser também a interpretação dum homem, pois coisas assim também pode acontecer com o ser masculino. Digo isso por que eu encontrei algumas partes do texto que me encontro.

Adorei e me vi vivendo essas identificações.


Bjos e boa semana!

Marcos Ster

Thiago Forrest Gump disse...

A indiferença pode ser fatal!

Belo texto, como o anterior!

CESAR AUGUSTO DR disse...

Fernanda Passos largos à nova aurora. Grande prazer.